No artigo anterior, falávamos sobre o paradoxo da hiperautomação: como adicionar mais tecnologia ao Data Center nem sempre significa ganhar controle e como uma automação mal governada pode acabar gerando mais complexidade do que eficiência.
Mas quando a tecnologia muda, não mudam apenas os sistemas; mudam também as pessoas que os gerenciam.
E aí surge uma pergunta igualmente incômoda, mas imprescindível:
o que realmente significará “gerenciar” um Data Center em 2026?
Da figura técnica ao papel fundamental da operação
Durante anos, o Data Center Manager foi, acima de tudo, uma figura técnica, a pessoa que sabia onde tocar, quando intervir e como reagir quando algo falhava.
Esse conhecimento continua sendo valioso, mas já não é suficiente.
Não porque a tecnologia seja menos importante, pelo contrário, mas porque a complexidade cresceu tanto que já não se pode gerenciar unicamente a partir do aspecto técnico.
Diferentes análises do setor apontam que, daqui até 2026, os centros de dados operarão com inteligência artificial integrada em todas as funções, antecipando falhas, ajustando o desempenho e reduzindo a intervenção manual constante.
Nesse contexto, o papel do manager muda inevitavelmente.
Do “saber fazer” ao “saber decidir”
Hoje, um responsável por infraestruturas críticas convive com:
- Automatismos que executam ações.
- Sistemas que preveem comportamentos.
- Dashboards repletos de métricas.
- Alertas que nem sempre explicam o porquê.
O problema já não é a falta de informação, é o excesso de informação sem contexto.
Quando a IA e a automação se incorporam em toda a operação do Data Center, o verdadeiro desafio passa a ser interpretar o que ocorre e decidir com critério, não executar tarefas isoladas.
Neste cenário, o valor do Data Center Manager não está em saber executar uma tarefa específica, mas em entender o que está acontecendo, por que está acontecendo e qual decisão faz mais sentido tomar.
Isso não é menos importante que o técnico. É, de fato, mais difícil.
Quando a automação aumenta, o papel humano não desaparece… muda
xiste uma ideia equivocada de que a automação avançada vai “substituir” o responsável pelo Data Center; a realidade é justamente o contrário.
Quanto mais automatizada está a operação:
- Mais importante é confiar nos sistemas.
- Mais crítico é entender seus limites.
- Mais necessário é alguém que veja o conjunto..
A Hewlett Packard Enterprise resume claramente: os profissionais mais eficazes serão aqueles capazes de colaborar com a IA, definir intenções, validar decisões e orquestrar a automação em escala, não aqueles que se limitam a executar tarefas técnicas.
O Data Center Manager deixa de ser quem “faz” para se tornar quem orquestra, valida e dá sentido ao que as tecnologias fazem.
Aqui surge um conceito-chave: confiança. Não se pode delegar uma decisão a um sistema que não se entende. Não se pode automatizar algo em que não se confia.
O novo centro de gravidade do cargo
Em 2026, o papel do Data Center Manager se moverá em direção a quatro grandes eixos:
Visão global do Data Center
Não como uma soma de ferramentas, mas como um sistema único onde:
- Os dados estão conectados.
- Os processos fazem sentido.
- As decisões são rastreáveis.
- Menos silos. Mais contexto.
Tradução entre tecnologia e negócio
Cada vez mais, o Data Center impacta diretamente na:
- Continuidade do serviço.
- Custos energéticos.
- Riscos operacionais.
- Reputação.
O manager será quem traduzirá o técnico em impacto real para decidir o melhor.
Confiança progressiva na automação
Nem tudo se automatiza de uma vez. A automação amadurece pouco a pouco, à medida que demonstra valor.
O papel humano não desaparece: desloca-se da execução para a supervisão consciente.
Esta evolução do perfil profissional é uma tendência clara no setor, onde os cargos tradicionais se transformam em perfis híbridos que combinam tecnologia, análise e tomada de decisão.
Liderar pessoas em ambientes cada vez mais complexos
Paradoxalmente, quanto mais tecnológica é a operação:
- Mais importante é a coordenação.
- Mais crítico é o conhecimento compartilhado.
- Mais valor tem a clareza.
O manager deixa de ser o “especialista solitário” para se tornar um facilitador do conhecimento coletivo.
Aqui é onde este artigo se conecta diretamente com o anterior.
Se a hiperautomação mal governada gera caos… o Data Center Manager do futuro é quem deve colocar ordem sem frear a inovação.
Não adicionando mais camadas de controle manual, mas sim:
- Exigindo coerência.
- Pedindo explicabilidade.
- Buscando sistemas que ajudem a pensar, não apenas a executar.
A tecnologia não substitui o papel humano, ela exige que ele evolua.
Em 2026, o Data Center Manager não será menos técnico, será menos operacional e mais consciente.
Menos tempo apagando incêndios.
Mais tempo entendendo padrões.
Menos decisões reativas.
Mais confiança em sistemas que trazem contexto.
E talvez esse seja o verdadeiro salto que estamos vivendo: passar de gerenciar infraestruturas… a entendê-las de verdade.